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quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A verdade ( e esta agora? )

Este texto foi copia dum blog que esta na minha lista de blogs, (blog do Max) achei que tem importância para a maioria das pessoas.

Um dos assuntos mais controversos e debatidos nos meios ciclísticos e triatléticos diz respeito ao comprimento da pedivela. Uns dizem que quando mais longo melhor, outros que quanto mais curto melhor. Outros dizem que esse comprimento deve ser proporcional ao tamanho dos membros inferiores do atleta. Ciclistas de contra-relógio dizem que quanto mais longo melhor. Triatletas dizem que quando mais curto melhor será o rendimento na corrida. Isso é o que eu já ouvi, mas deve haver outras teorias.

Eu mesmo tenho as minhas. Ou melhor, tinha. Agora não preciso mais de teorias, porque A Verdade sobre esse assunto me foi inesperadamente apresentada. Durante uma das aulas sobre medição de potência, alguém mencionou o assunto comprimento de pedivela, e invariavelmente o debate começou. O palestrante no momento, Dr. Steve McGregor, especialista em biomecânica e que como todo o bom norte-americano não gosta de perder tempo, colocou fim à discussão antes mesmo que ela começasse: "tamanho de pedivela não importa".

Silêncio na sala. Um silêncio profundo, indignado até por parte de alguns, e curioso da minha parte. "Se esse cara, um PhD em fisiologia do esporte, autor de livros, diz que não importa, eu gostaria de saber por que", pensei com meus botões enquanto torcia para alguém mais ousado desafiar as palavras do nosso carrasco. E como que lendo os nossos pensamentos, ele complementou com "foi o próprio Jim Martin quem chegou a essa conclusão".

Para quem não sabe - eu não sabia - Jim Martin é a maior autoridade mundial em compriimento de pedivela. Nos últimos 15 anos esse senhor passou boa parte da vida em um laboratório com medidores, pedivelas de todos os comprimentos possíveis e imagináveis, e atletas dispostos a sevir de cobaias. Publicou dezenas de artigos científicos, cada um advogando suas descobertas ao longo desses anos.

Logo em seguida, a cobertura do bolo. Hunter Allen complementou: "eu estive com ele recentemente em seu laboratório, e me disse que a vida dele tinha sido em vão, pois havia passado 20 anos pesquisando qual o melhor tamanho de pedivela para chegar à conclusão de que esse tamanho não importa. Segundo Jim, um atleta, desde que tenha tempo para adaptação, irá produzir a mesma potência com qualquer tamanho de pedivela. E eles fizeram testes com pedivelas que vão desde 140mm até 200mm! A influência maior nesse caso será no conforto, visto que para uma mesma altura de selim, quanto menor for o comprimento do pedivela, mais aberto fica o ângulo entre tronco e pernas, e portanto melhor o atleta respira". A sala continuou muda, cada um refletindo sobre o que havia ouvido.

É sempre assim quando as nossas verdades são contestadas por uma outra que parece maior e mais sólida. E eu vou percebendo que nenhuma verdade é tão grande e sólida quanto aquela que propõe a não existência de uma verdade absoluta. Tudo depende de adaptação, preferências, limites e tempo, por um lado, e de flexibilidade para aceitar que esses parâmetros são dinâmicos, e portanto o que é "ideal" hoje pode não sê-lo amanhã. Lógico que isso não vale para tudo, mas pelo menos com relação a dogmas no esporte creio que vale sim, e vou deixar mais dois exemplos.

Ainda durante a mesma palestra, novamente o nosso professor Pardal veio com outra bomba: alongamento para maratonistas é mais prejudicial que benéfico do ponto de vista de performance. A justificativa dele é que musculos alongados na parte posterior da coxa tornam o retorno da perna para frente mais demorado, exigindo ainda uma contração muscular mais intensa da parte anterior. Já o músculo posterior encurtado "puxa" a perna de volta para frente, tornando o movimento mais rápido e menos exigente do ponto de vista metabólico. E para arrasar com o que havia sobrevivido à primera bomba, disse também que musculação para ciclistas, no conceito dele, tem validade zero (exceto para ciclistas de provas curtas de pista com largada parada). A justificativa é complexa demais para descrever aqui, mas basicamente ele prova numericamente que a força máxima utilizada mesmo em esforços intensos de pedalada não chega a 60% da força máxima que somos capazes de produzir. Alguém perguntou se os treinos de Big Gear não ajudavam a ensinar os músculos a trabalhar de maneira eficiente ao longo da pedalada toda. Ele disse que não. "O que vale é a especificidade do movimento. Big Gear vale a pena se você pedala dessa maneira em provas - o que ninguém faz". Além disso, há evidências que a pedalada quadrada é melhor que a pedalada redonda (sobre esse assunto eu não vou nem comentar). Perguntei se ele nunca usava musculação com seus atletas (ele treina vários, inclusive a nível profissional), e ele respondeu que sim. "Entre uma temporada e outra, uso musculação para sair da monotonia de pedalar, pedalar e pedalar. Senão eles iriam cansar do meu treino e procurar outro técnico".

Depois dessa palestra, fiquei pensando se algum dia na minha vida já havia entrado em contato com a Verdade Inquestionável, Absoluta e Segura. Aquela verdade que não dá espaço para análises, pensamentos, reflexões ou contestação. Ela é, e pronto. E me veio à mente as vezes em que, durante o inverno, eu havia mergulhado em uma piscina de água muito, muito gelada que vinha direto da serra do mar. Era um pulo para dentro, alguns segundos dentro da água gelada, e outro pulo para fora.

E tenho certeza absoluta que durante aqueles poucos segundos dentro daquele bloco de gelo líquido, eu vivi a verdade. O resto é tudo muito relativo.

m.
Postado por Max

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